24/01/2018 08h30

A vida e a voracidade do tempo

Por: Davi Roballo
 

Não há algo na existência que fascina mais o ser humano do que o tempo. Esse fenômeno que gerencia nossa vida tem desfiado filósofos e cientistas por toda a história da humanidade. Nas antigas civilizações, lendas e mitos foram construídos para melhor compreendê-lo, bem como, aceitar sua indiferença ante as coisas e a vida.

Na mitologia grega o tempo foi personificado no deus Kronos representado por um ancião portando uma ampulheta "relógio de areia". A fim de destronar seu pai e a pedido de sua mãe Gaia "Terra", Kronos castrou seu pai Urano "Céu" tornando-se o rei dos deuses, mas, temendo uma profecia de que ele um dia seria deposto por um de seus filhos -como ele havia destronado seu pai-, passou a devorar seus descendentes assim que nasciam. Dessa analogia vem o termo de que o tempo a tudo devora, isto é, ele mesmo gera e imediatamente consome cada segundo que surge.

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Cansada de ver seus filhos serem devorados pelo pai, Reia entregou uma pedra enrolada em um cobertor a Kronos que a engoliu sem conferir se era seu recém nascido Zeus, seu último filho. Zeus foi entregue a sua avó Gaia que confiou a criação da criança à cabra Amaltéia. Quando se tornou adulto, Zeus destronou seu pai e o fez beber uma poção para vomitar seus irmãos.

Urano foi deposto por seu filho Kronos, que por sua vez foi destronado por Zeus seu filho, porque nada é eterno, tudo é transitório.

O mito de Kronos representa a ação do tempo em nosso corpo e nosso existir, ou seja, nos sentimos insubstituíveis e imortais, pois, em nossa pobre concepção da vida, ninguém realiza as coisas de uma forma melhor do que nós, como também, desejamos acreditar que a morte é um fenômeno que acontece apenas aos outros, mas o próprio tempo de mãos dadas com a velhice ou a fatalidade nos prova o contrário.

A castração de Urano representa o confronto do pai e do filho pelo direito de mando e liderança no espaço doméstico. Na vida comum, inconscientemente como precaução ante ao complexo de Kronos, o pai castra a impetuosidade do filho macho, submetendo-o a sua autoridade até que ele possa constituir, prover e liderar a própria família, mas, pela ação do tempo, chega o dia em que o filho transforma-se em pai do próprio pai, ou seja, devido as limitações impostas pelos dias, o pai é castrado e perde determinado poder, muitas vezes, até sobre si mesmo.

Kronos na interpretação grega da vida é um apelo à consciência humana de que não somos eternos, ou seja, nossos filhos terão filhos e seguirão nossos mesmos passos, nossos empregos serão de outros que virão após nos tornarmos obsoletos, devido a idade e limitações físicas advindas disso. É a voracidade implacável do tempo que a tudo devora. Devora infância, juventude, amores, alegrias, sucesso, glórias, não importa o que for, ele devora tudo, até mesmo as coisas materiais que enferrujam, se deterioram, nada escapa às ações do tempo, absolutamente nada...

A vida é uma sucessão de fases, infância, adolescência, juventude, maturidade e velhice, porque o tempo anda, evolui e é sedento por continuidade. Tudo é engolido pela garganta do tempo, mas, como consolo nos é dado as poções mágicas da lembrança e da saudade que fazem o tempo vomitar fragmentos de ciclos que já passaram por sua boca.

Nada é capaz de impedir a ação do tempo. Foi com o tempo que surgiu o planeta em que estamos, foi através dele que surgiu a vida e queiramos ou não, será por ele que a vida se extinguirá um dia, e mais adiante por ação dele a própria Terra deixará de existir. O tempo já engoliu civilizações, sábios e heróis que jamais ouviremos falar, assim como engolirá a minha, a tua, a nossa história e nada pode ser feito quanto a isso, pois o tempo é o maestro dos acontecimentos...

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