Sabor

Barraca da Níria encerra história de 44 anos com fila e despedidas

Herdeiro decide fechar a barraca para cuidar do pai doente; clientes lotaram o espaço

Hitomi da Silva trabalhou por 13 anos na barraca da Níria (Foto: Natália Olliver) Hitomi da Silva trabalhou por 13 anos na barraca da Níria (Foto: Natália Olliver)

Desde que Gabriel Tadashi, conhecido como o herdeiro do sobá, anunciou que a barraca da Níria, uma das mais tradicionais e antigas da Feira Central, fecharia, não houve um dia em que os clientes não fizessem fila para comer lá pela última vez. O cenário não foi diferente neste domingo (23), último dia do restaurante, que funcionou por 44 anos e estava na 3ª geração.

O Lado B acompanhou tudo desde o início da noite e assim que a barraca abriu, às 18h30, os clientes logo ocuparam as mesas para se despedir. O movimento mostrou a dimensão do legado construído pela família e surpreendeu funcionários e o próprio Gabriel. Isso porque o horário de abertura era normalmente tranquilo.

Ele conta que decidiu fechar as portas não somente por razões financeiras, mas para conseguir se dedicar aos cuidados com o pai, que enfrenta problemas com a diabetes. Segundo Gabriel, ele perdeu um membro e está quase cego. Por ser filho único e o pai não gostar de outros cuidados, a situação acaba sendo mais complexa.

Ananda Souza Arruda, de 36 anos, bate ponto desde que nasceu na barraca da Níria. Ela fez questão de estar ali para comer o yakisoba pela última vez. Acompanhada do marido e do filho, José Vicente, de 8 anos, e grávida de 5 meses, Ananda disse que esse foi o fim de uma tradição de 36 anos.

"Eu venho desde que tava no barriga da minha mãe, Quando a feira ainda era lá na Mato Grosso. É triste. A gente gostaria que continuasse, infelizmente a gente vai encerrar uma parte da nossa história junto com a deles. Mas é gratificante fazer parte disso. A gente gosta de tudo, mas o principal é o soba e o yakisoba. A gente todo mês, pelo menos uma vez, a gente tá aqui".

Os pais eram amigos da própria Níria e do marido dela, pai dele. "Quando ela faleceu foi um bate, mas a gente sempre falou que iria continuar vindo. Hoje vim ceso para garantir minha vaga. Vi que estava uma fila de espera".

Do outro lado do balcão, Gabriel tentava dar conta do movimento enquanto assimilava a própria despedida. “Tô moído”, resumiu, em meio à correria. Para ele, o encerramento reúne sentimentos difíceis de separar. Há tristeza pelos clientes que não verá mais com a mesma frequência, mas também alegria pelo reencontro com pessoas que não apareciam havia algum tempo e com aquelas que fizeram da barraca parte da rotina.

“Tem alegria, tem tristeza, tem correria, tem frustração, tem um pouquinho de dor no peito de clientes que a gente não vai ver com tanta frequência".

A quantidade de clientes nos últimos dias surpreendeu até quem passou a vida dentro da feira. Gabriel explica que a decisão foi anunciada pouco antes do fechamento e acabou pegando muita gente de surpresa. Assim, quem soube da notícia correu para garantir uma última visita. “Eu divulguei o vídeo muito em cima da hora. Então o pessoal meio que se amontoou".

O encerramento não muda apenas a rotina dos clientes. Para Ida Nishihira, de 76 anos, são 15 anos de trabalho na Barraca da Níria. Tia de Gabriel, ela trabalhou durante anos ao lado da mãe dele e permaneceu no restaurante depois da morte da irmã. “Para a gente fica aquele sentimento de perda, de ganho, de tristeza, mas está tudo bem".

Na cozinha, Ida ajudava no preparo de yakisoba, yakimeshi e na parte de frituras. Após uma década e meia na rotina intensa da feira, ela brinca que talvez tenha chegado a hora de descansar um pouco, embora reconheça que ficar parada não combina muito com ela.

“Também não gosto de ficar em casa sem fazer nada, gosto de trabalhar. Se precisar e alguém chamar, eu volto”, diz.

A fila do último dia também chamou a atenção da funcionária. “Nesse horário nunca tem gente fazendo fila aqui”, observou. Para Hitomi da Silva, de 68 anos, o sentimento também é de saudade. Ela trabalha há 13 anos na barraca e diz que foi ali que aprendeu sobre o sobá.

“Vai deixar muita saudade. Eu me aposentei aqui. A mãe do Tadashi era muito boa, ele também é um ótimo patrão, o melhor que eu tive, não puxando o saco”, brinca. Hitomi conta que o fechamento repentino trouxe tristeza justamente pela situação enfrentada pela família.

“Agora, com o pai dele assim, ficamos muito tristes de ter que encerrar dessa forma. Foi tudo muito de repente, mas está tudo bem. Vai ficar na memória o convívio com as pessoas.” Paulista, ela também leva da barraca um aprendizado sobre o sobá de Okinawa, que, antes de chegar a Campo Grande, sequer fazia parte da vida dela.

“Eu aprendi muito com a dona Níria porque não conhecia esse sobá. Sou de São Paulo e, na época que vim, não tinha. Aí aprendi a manusear bastante o hashi e agora estou craque em fazer sobá”, conta.

Para Gabriel, o problema é conciliar as coisas do pai com a atividade que exige praticamente todo o tempo disponível. A barraca funciona de quarta-feira a domingo, e a preparação dos alimentos, o atendimento e a administração significam jornadas que podem chegar a 10 ou 12 horas por dia. Por isso, Gabriel decidiu buscar uma rotina que permita estar mais presente em casa.

Mas ele alerta que estar fechando não significa que tenha decidido abandonar definitivamente a gastronomia. Gabriel admite que pode voltar ao ramo em outro formato, com uma rotina que consiga conciliar tudo.

“Não está descartado eu continuar trabalhando com gastronomia. Não sei se mais para frente faço evento ou feira de rua. Alguma coisa pode sair. Não dou certeza, mas com certeza não descarto a ideia".

Para ele, a Barraca da Níria também representa uma parte da contribuição da comunidade okinawana à identidade de Campo Grande. O Lado B falou mais sobre a história da barraca. Clique aqui e relembre.

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