Onde termina o Brasil e começa o Paraguai, a integração é natural. O desafio do Estado é impedir que essa facilidade também beneficie o crime organizado. (Foto Ponta Porã News)
O Brasil mantém uma das maiores estruturas militares da América Latina. Exército, Marinha e Aeronáutica consomem bilhões de reais todos os anos em recursos públicos para cumprir uma missão constitucional clara: defender a soberania nacional e preparar o País para enfrentar uma eventual agressão externa.
O Brasil debate se deve ampliar a atuação permanente das Forças Armadas no combate ao crime organizado transnacional e na proteção das fronteiras. O país possui milhares de quilômetros de fronteiras vulneráveis, por onde entram drogas e armas ilegais. Especialistas defendem mudança constitucional para que militares atuem de forma integrada às polícias, com controle institucional e respeito aos direitos fundamentais.
Mas a pergunta que a sociedade tem o direito de fazer é simples: qual é a maior ameaça que o brasileiro enfrenta hoje?
Não há tanques cruzando as fronteiras. Não há aviões inimigos sobrevoando nossas cidades. O inimigo que mata milhares de brasileiros todos os anos veste outra roupa. Está armado com fuzis, domina territórios, controla o tráfico de drogas, financia facções criminosas, corrompe agentes públicos e destrói famílias inteiras.
É uma guerra silenciosa, mas permanente.
As fronteiras brasileiras continuam sendo corredores por onde entram toneladas de drogas e milhares de armas ilegais. Mato Grosso do Sul conhece essa realidade como poucos. Compartilhando centenas de quilômetros de fronteira com Paraguai e Bolívia, o Estado tornou-se uma das principais portas de entrada da cocaína, da maconha e dos armamentos que abastecem organizações criminosas espalhadas pelos grandes centros do País.
O resultado aparece diariamente.
Hospitais lotados por vítimas da violência. Jovens mortos antes dos 25 anos. Famílias destruídas pela dependência química. Pais que enterram filhos. Mães que assistem, impotentes, seus adolescentes transformarem-se em verdadeiros zumbis, consumidos pelo vício. Cidades que convivem com furtos, assaltos, homicídios e disputas entre facções.
Essa é a guerra real do Brasil.
Enquanto isso, boa parte da estrutura militar permanece concentrada em grandes centros urbanos, instalada em áreas valorizadas das cidades, cumprindo funções que, embora importantes para a defesa nacional, pouco interferem no principal problema de segurança pública enfrentado pela população.
Não se trata de militarizar a segurança pública nem de substituir o trabalho das polícias. Cada instituição possui atribuições específicas, treinamento próprio e responsabilidades distintas.
O debate que precisa ser feito é outro.
A Constituição Federal foi elaborada em um contexto muito diferente do atual. O crime organizado transnacional ganhou poder econômico, tecnológico e bélico. Em muitos casos, dispõe de armamentos comparáveis aos utilizados por forças militares e opera além das fronteiras nacionais, movimentando bilhões de reais.
Diante dessa nova realidade, é legítimo discutir se o País não deveria ampliar, mediante mudança constitucional, a participação permanente das Forças Armadas na proteção das fronteiras e no combate às organizações criminosas que atuam internacionalmente.
Não seria uma missão policial comum.
Seria uma missão de defesa nacional.
Porque o tráfico internacional de drogas e armas deixou de ser apenas um problema de segurança pública. Tornou-se uma ameaça à soberania do Estado brasileiro, infiltrando-se na economia, na política, no sistema prisional e até em instituições públicas.
Se armas e drogas entram pelas fronteiras, é ali que o combate precisa ser intensificado.
O Brasil possui milhares de quilômetros de fronteiras terrestres extremamente vulneráveis. Fiscalizar essa imensidão exige efetivo, inteligência, tecnologia, logística e capacidade operacional que poucos órgãos possuem. As Forças Armadas reúnem exatamente essas características.
Fortalecer sua presença permanente nas regiões de fronteira, integrada às polícias, à Receita Federal e aos órgãos de inteligência, pode representar uma resposta mais eficiente ao crime organizado.
Naturalmente, qualquer mudança exige limites claros, controle institucional, respeito aos direitos fundamentais e mecanismos rigorosos de fiscalização. Democracias fortes não abrem mão do Estado de Direito, mesmo quando enfrentam organizações criminosas.
Mas também não podem permanecer paralisadas enquanto o inimigo se fortalece.
O Brasil precisa decidir se continuará tratando o tráfico como um problema exclusivamente policial ou se reconhecerá que enfrenta uma ameaça estratégica contra a própria estabilidade do Estado.
Enquanto essa resposta não vier, o crime continuará fazendo aquilo que faz há décadas: atravessar as fronteiras quase sem resistência, enriquecer às custas da morte de milhares de brasileiros e impor uma guerra que já começou faz muito tempo.
A diferença é que, até hoje, o País ainda não decidiu mobilizar toda a sua capacidade para vencê-la.
Comentários