A certidão de óbito de João Guilherme Jorge Pires, de 9 anos, aponta que a morte do menino, ocorrida na madrugada de terça-feira (7), em Campo Grande, foi causada por uma infecção generalizada associada a complicações respiratórias. O documento indica como causas a insuficiência respiratória, a septicemia, infecção disseminada pelo organismo, e a artrite séptica, que atinge as articulações.
As informações revelam que o quadro clínico da criança evoluiu rapidamente, com a infecção se espalhando pela corrente sanguínea e comprometendo órgãos vitais, até resultar em falência respiratória.
Além da causa clínica, documentos médicos levantam questionamentos sobre o atendimento prestado. Um prontuário de encaminhamento aponta que houve falha na intubação realizada na UPA Universitário. O menino deu entrada na unidade já em estado grave, com insuficiência respiratória e sinais de cianose.
Segundo o registro, ao assumir o transporte, a equipe do Samu encontrou a criança em parada cardiorrespiratória, com o tubo mal fixado e presença de grande quantidade de sangue nas vias aéreas. Mesmo após tentativas de reanimação durante o trajeto até a Santa Casa, o quadro continuou crítico.
Na chegada ao hospital, por volta de 0h10, os médicos conseguiram reverter a parada após três ciclos de reanimação. No entanto, durante a preparação para troca do tubo devido a vazamento de ar, o menino sofreu uma nova parada cardiorrespiratória. Após oito ciclos de manobras sem sucesso, a morte foi confirmada às 1h05.
O corpo foi encaminhado ao Imol (Instituto de Medicina e Odontologia Legal), e os exames periciais devem complementar as informações sobre a causa da morte.
Procurada, a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) informou que o caso está sob investigação. Em nota, a pasta afirmou que, por conta da Lei Geral de Proteção de Dados e do sigilo médico, não pode divulgar detalhes do atendimento, mas garantiu que todas as circunstâncias estão sendo apuradas com base em prontuários e registros. A secretaria destacou ainda que eventuais responsabilidades serão rigorosamente analisadas e medidas cabíveis poderão ser adotadas.
Entenda o caso
De acordo com boletim de ocorrência, o menino sofreu uma queda no dia 2 de abril e passou por atendimento inicial na UPA do bairro Tiradentes, onde realizou exames e foi liberado com medicação para dor.
Nos dias seguintes, ele retornou outras vezes à UPA Universitário, sempre com queixas persistentes. Mesmo relatando dores no peito em um dos atendimentos, o sintoma teria sido atribuído à ansiedade, e o paciente acabou liberado novamente.
No dia 5, após nova avaliação, foi identificado um problema no joelho da perna esquerda, e a família recebeu orientação para procurar a Santa Casa. No dia seguinte, o menino passou por imobilização da perna, mas foi liberado.
Horas depois, ainda na segunda-feira, ele apresentou piora súbita, com desmaio e coloração arroxeada pelo corpo. Levado novamente à UPA Universitário, chegou desacordado. Sem médico no local naquele momento, a equipe iniciou os primeiros socorros e realizou a intubação antes da transferência.
O caso foi registrado como homicídio culposo — quando não há intenção de matar — na Depac Centro e encaminhado à DEPCA (Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente), que conduz as investigações.

Comentários