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Há 11 anos em MS, venezuelana relata esperança e medo do país se tornar novo campo de disputa

Imigrante venezuelana, Rosana Daza é professora universitária, pesquisadora e fundadora da Associação Dunamis - Crédito: Clara Medeiros/Dourados News Imigrante venezuelana, Rosana Daza é professora universitária, pesquisadora e fundadora da Associação Dunamis - Crédito: Clara Medeiros/Dourados News

“Muitos de nós podemos sentir uma sensação momentânea de alívio por não ver [Nicolás] Maduro no país, mas isso não apaga a consciência de que o futuro da Venezuela continua em risco. Muitos temos sentimentos mistos: esperança em mudanças, mas também medo de que o país se torne novamente um campo de disputa, onde quem mais sofre é a população”, afirma a professora universitária e pesquisadora na área de Letras, Rosana Daza, 43 anos, venezuelana que há 11 anos mora em Mato Grosso do Sul, para onde imigrou buscando fugir da escassez e repressão do regime ditatorial deposto no final de semana, após ataque orquestrado pelo presidente norte-americano Donaldo Trump.

Rosana construiu uma carreira profissional no ensino superior e também de ativismo político, especialmente por ser considerada uma figura de liderança, como uma das fundadoras da Dunamis Multicultural, associação que representa imigrantes no município.

A pesquisadora é uma entre os aproximadamente sete mil venezuelanos que moram em Dourados. A cidade é uma das que mais recebeu pessoas dessa nacionalidade, a maioria através da Operação Acolhida que fez a interiorização a partir de Roraima, Estado brasileiro localizado na fronteira com a Venezuela.

É uma população está presente em diversos setores, especialmente em áreas como comércio, serviços, agroindústria e construção civil, além de crianças e adolescentes nas redes municipal e estadual. Muitos ‘fizeram a vida’ em Dourados, mas isso não significa que todos conseguiram boas oportunidades e também não diminui a vontade de muitos de voltar ao país de origem.

“Depois que a gente sai deveria ser passado, mas a gente enfrenta outras dores no país que acolhe, porque não é tão simples. A gente aprende a ler não só em português, mas o olhar das pessoas”, relata Rosana, lembrando que ainda há muita “indiferença”. “Esse olhar de que você é invisível dói muito, porque você está em um lugar que não é sua casa e não quer gerar problema. Você gostaria de estar na sua casa, mas lá não pode porque está sendo agredida. Então, a situação que a gente vive como imigrante, eu não desejo para ninguém”, complementa.

Ela lembra que migrar não é uma decisão fácil, muito menos ver a terra natal ser destruída por bombardeio. “Muitas pessoas consideram que as coisas materiais são importantes, mas ter que deixar sua família, sua cultura, seu costume, é algo que não tem valor e não tem preço. E a gente já experimentou esse sentimento, já teve essa experiência”, afirma. “É impossível a gente falar de hoje, das bombas de hoje, da violência de hoje, sem lembrar a violência, a dor de ontem, desse passado recente. É muito fácil para muitas pessoas questionarem hoje, mas o que a gente tem hoje foi construído de tempo, porque nós como venezuelanos, há quantos anos já temos mostrado essa dor, essa violência, esse maltrato, essa agressão que vivíamos em nossa própria casa?”, questiona.

Rosana lembra que mesmo após anos de investidas sem sucesso da oposição para tirar Maduro do poder, o sentimento com sua saída da Venezuela também é misto por acreditar que conflitos políticos não devem ser resolvidos por meio da força e da violência. Ainda assim, ela acredita que todos deveriam ter o direito de decidir se querem voltar para casa, mas em um país com o mínimo de qualidade de vida.

“Quem veio para o Brasil gastou muito, perdeu muito para poder estar aqui hoje, então essa decisão de a gente voltar porque o presidente já não está mais lá, deve ser um pouquinho mais pensada porque existem outros fatores”, explica. “Voltar para sua casa significa novamente iniciar um terceiro processo que te gerou muitos anos de muita dor”, afirma, lembrando que seria, mais uma vez, recomeçar a vida do zero.

INSTABILIDADE

Apesar da perspectiva otimista de muitos imigrantes após a queda de Maduro, o cenário no país ainda é de instabilidade por se tratar de algo recente. “A gente não tem nem certeza efetivamente de qual vai ser o regime político e o governo que vai permanecer na Venezuela. Nesse momento, a gente tem a indicação de que a vice-presidente [Delcy Rodríguez] ocupe a função, aparentemente há também indicativo do Governo dos Estados Unidos de que essa possa ser uma saída negociável, desde que haja a possibilidade de exploração por parte de empresas americanas das reservas de petróleo. Então, a gente ainda tem muita negociação para acompanhar nos próximos dias, nas próximas semanas”, afirma o professor e pesquisador Hermes Moreira Junior, doutor em relações internacionais.

Diretor da Fadir/UFGD (Faculdade de Direito e Relações Internacionais da Universidade Federal da Grande Dourados), Moreira Junior também é gestor do Acordo de Cooperação Técnica entre a UFGD e o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, e membro do Comitê Municipal para Refugiados, Migrantes e Apátridas de Dourados.

Para ele, as negociações podem avançar para uma retirada de sanções, que podem levar aos poucos a recuperação da economia do país e, por sua vez, a volta dos imigrantes ao país de origem. “Eu acho que a partir desse momento que a gente vai ter de fato uma expectativa de regresso dos venezuelanos que estão fora do país. Hoje tem uma diáspora de aproximadamente 8 milhões de venezuelanos fora da Venezuela, cerca de 500 a 600 mil no Brasil” complementa.

O professor ainda ressalta que o retorno não deve ser simples e nem imediato, especialmente pelo alto custo, já que a vinda dos imigrantes da fronteira para cidades como Dourados, foi em geral subsidiada pelas Nações Unidas. “Não há previsão de subsídio de retorno, então eles teriam que arcar com os custos dessa volta. E também as pessoas têm aqui uma dinâmica própria de vida, de empregos, crianças em escola, muitos na universidade, então cada um também tem, talvez, um tempo próprio para esse retorno”, explica.

PRECEDENTE

Há risco ainda de instabilidade em outros países, visto que há um consenso hoje de que Trump feriu normas do direito internacional. “Eles invadiram o território soberano e capturaram, sequestraram, o líder de um país. Então, há uma infração muito grave das normas e há também um precedente que nunca havia sido rompido na América do Sul. É a primeira vez em que os Estados Unidos intervêm diretamente, militarmente, no território de um país do continente sul-americano”, complementa.

Ele lembra que isso tem despertado preocupação em lideranças políticas, inclusive as que não apoiam, necessariamente, Maduro. “É a possibilidade de um precedente perigoso ser escancarado. Tanto o presidente Trump, quanto o seu secretário de Estado Marco Rubio, têm mencionado que Cuba e Colômbia são países que podem estar na mira para outras ações dessa natureza”, detalha o pesquisador.

MAIS MIGRAÇÃO

Além do respeito à soberania para manutenção do Estado Democrático de Direito, toda vez que há movimentações militares e intervenções nesse sentido, há ainda uma instabilidade social que pode ter como consequência fluxos migratórios.

“Nesse momento, a gente já tem um fluxo muito grande de venezuelanos pelo continente, mas intervenções dessa natureza, por exemplo, na Colômbia, podem gerar novos fluxos por todo o continente”, complementa o professor.

Hoje, são 3 milhões de venezuelanos vivendo em território colombiano. “Uma intervenção na Colômbia pode fazer com que além dos colombianos busquem novos lugares, esses venezuelanos também se desloquem”, explica.

Ele ainda lembra que há impacto econômico. “A partir do momento que você não tem previsibilidade do direito internacional, você também não tem previsibilidade para fazer negócio. E o comércio regional, ele é importante para o nosso dia a dia. Você tem oscilações nos preços básicos, preços de alimentos, de combustíveis, bolsas de valores, na moeda. Então, isso, mesmo não sendo no nosso país, acaba atingindo a população”, finaliza.
 

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