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Da terra ao prato, horta quilombola faz florescer histórias e tradições

Projeto une cultivo de alimentos, aulas de culinária e fortalecimento de vínculos em comunidade

Horta comunitária resgata tradição de cultivo dos antepassados e fortalece famílias do Quilombo São João Batista (Foto: Amanda Ferreira) Horta comunitária resgata tradição de cultivo dos antepassados e fortalece famílias do Quilombo São João Batista (Foto: Amanda Ferreira)

O que antes era uma tradição dos antepassados voltou a fazer parte da rotina de uma comunidade quilombola de Campo Grande. No Quilombo São João Batista, moradores se reúnem para aprender a plantar, cuidar da terra e transformar os alimentos colhidos em receitas para o dia a dia.

Moradores do Quilombo São João Batista, em Campo Grande, retomaram o cultivo de uma horta comunitária por meio do projeto Territórios, em parceria com o Sesc Mesa Brasil. Aos sábados, o agrônomo Gilson Silveira ensina técnicas de plantio, e oficinas de culinária incentivam o aproveitamento integral dos alimentos e a geração de renda. A comunidade, formalizada em 2000, atende mais de 200 famílias por mês e busca preservar a memória dos antepassados.

A iniciativa faz parte do projeto Territórios, desenvolvido em parceria com o Sesc Mesa Brasil, e vai além da produção de verduras e legumes. O objetivo é resgatar a história da comunidade, incentivar a alimentação saudável e fortalecer os vínculos entre as famílias.

A ligação com a terra começou muito antes da criação do projeto. Segundo a assistente social Rosana Cláudia Delfino da Anunciação Franco, de 53 anos, presidente do Quilombo São João Batista, a história da comunidade remonta a 1922, em Coxim, com sua bisavó Maria Rosa da Anunciação.

Em meados de 1945, a família se mudou para Campo Grande em busca de melhores condições de vida. "Aqui nesse espaço, há muitos anos, na década de 80, na década de 90, nós plantávamos milho, arroz, já plantamos mandioca, plantamos várias coisas aqui, além das árvores frutíferas, justamente porque isso está no nosso sangue, está na nossa história", relembra.

Com o crescimento das construções no entorno, o cultivo foi perdendo espaço e o local passou a receber atividades sociais. A comunidade quilombola foi formalizada juridicamente em 15 de novembro de 2000 e, desde então, desenvolve projetos voltados à educação, cultura, alimentação e fortalecimento familiar.

Para Rosana, recuperar a horta significa também preservar a memória dos antepassados. "Ela é para a gente um ponto também de recomeço, de fortalecimento das famílias, de união, de sentimento de pertença e também fazer com que essas famílias se encontrem e encontrem dentro do projeto a sua raiz, a sua história", afirma.

Mãos na terra – Todos os sábados, os participantes se reúnem para aprender técnicas de cultivo com o engenheiro agrônomo Gilson Silveira. As atividades incluem preparação do solo, adubação, irrigação, plantio e manutenção dos canteiros.

O diferencial é que os próprios moradores colocam os ensinamentos em prática. "Sábado é o dia mais esperado da semana, que é o nosso encontro. A gente faz desde a preparação do solo, adubação, irrigação. São eles mesmos que fazem na prática a irrigação, o encanamento, cola, tudo é eles que fazem", explica.

Durante as aulas, o conhecimento técnico também se mistura às experiências de quem cresceu no campo. Gilson conta que algumas participantes, como dona Lourdes, compartilham práticas aprendidas ao longo da vida. "Aqui a gente junta o conhecimento técnico com conhecimento empírico.

"A dona Lourdes, por exemplo, que já é uma senhora, que tem várias vivências em fazenda, traz algumas práticas que aprendeu com o dia a dia. E aí junta com a gente, que aprendeu na faculdade, e soma os conhecimentos", destaca. Segundo ele, o maior desafio é organizar a divisão das tarefas para garantir que todas as etapas do cultivo sejam realizadas.

Entre as participantes está a cozinheira Angela Maria dos Santos Ferreira Freitas, de 50 anos, moradora do bairro Jardim Tarumã. Ela conheceu o projeto por meio de uma amiga e decidiu participar porque sempre gostou de mexer com a terra. Para chegar às atividades, sai de casa cedo e, em um dos encontros, chegou por volta das 6h50.

 "Eu sempre queria mexer com terra, já mexer com horta, aí vim fazer. Aqui conheci muitas meninas, me identifiquei com todo mundo e estou adorando o projeto", conta.

Angela afirma que a experiência trouxe mudanças para a rotina e para a maneira como cuida da própria saúde. Além do aprendizado sobre alimentação, o encontro semanal se tornou uma oportunidade de sair das tarefas domésticas e conviver com outras pessoas.

 "Impacta na saúde, saúde mental, para tirar um pouco o foco de serviço, de casa, dia a dia dentro de casa", relata. Na alimentação, passou a valorizar mais os produtos naturais e a reduzir o consumo de industrializados.

Mesmo já tendo tentado cultivar algumas plantas em casa, a cozinheira descobriu técnicas que desconhecia. Nas aulas, aprendeu sobre o período adequado para plantar, a quantidade de adubo e os cuidados necessários para manter os alimentos saudáveis.

"Eu plantava, mas não sabia como. Já tentava fazer alguma coisa em casa, plantar alguma coisa, mas saber certinho como você planta, como aduba, o tempo, isso eu não sabia", explica. Uma das descobertas foi entender que nem toda vegetação ao redor das plantas precisa ser retirada.

Da horta para a cozinha – O projeto também oferece oficinas de culinária com foco no aproveitamento integral dos alimentos. A analista em nutrição Cristina Lubas, do Sesc Mesa Brasil, ensina receitas que utilizam ingredientes cultivados na própria comunidade. Em uma das aulas, a escolha foi uma panqueca doce de abobrinha verde, proposta que surpreendeu as participantes por transformar um alimento geralmente utilizado em pratos salgados em uma sobremesa.

"Hoje eu trouxe uma das primeiras receitas do nosso curso, uma receita super-rápida, prática, bem gostosa e diferente, porque é uma panqueca doce de abobrinha verde. Normalmente, as pessoas consomem abobrinha verde em preparações salgadas, mas eu trouxe essa proposta de preparação doce", explica Cristina. A receita pode ser feita manualmente ou no liquidificador e também pode ser adaptada para o formato de bolo.

Além de incentivar a alimentação saudável e evitar o desperdício, as oficinas apresentam possibilidades de geração de renda. As participantes recebem um caderno para guardar as receitas e podem reproduzi-las em casa ou comercializar os produtos.

"São receitas gostosas, sustentáveis e bem acessíveis. O custo das receitas é bem baixo, então elas conseguiriam ter uma margem de lucro bem boa para fazer a venda desses produtos", afirma a nutricionista.

Mais de 200 famílias atendidas – A horta integra uma rede de ações sociais mantidas pelo Quilombo São João Batista. Segundo Rosana, a comunidade atende mensalmente mais de 200 famílias por meio de projetos socioeducativos, doações de alimentos e atividades de fortalecimento de vínculos. Em períodos com maior quantidade de doações, o atendimento já ultrapassou 320 famílias.

 "Nós temos o cadastro das famílias que precisam, das famílias que são beneficiadas, e conforme a quantidade do alimento que chega, a gente liga para as famílias e elas vêm buscar os alimentos", explica.

Para participar, é necessário passar por cadastro e avaliação socioeconômica, que considera a realidade de cada família. Para a presidente da comunidade, a horta representa não apenas uma fonte de alimentos, mas a continuidade de uma história familiar que começou há mais de um século e permanece viva por meio das novas gerações.

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